
Evento reuniu mais de 30 lideranças dos setores público, acadêmico, financeiro e da sociedade civil para debater o papel estratégico do oceano na construção de um futuro resiliente, justo e de baixo carbono
Em um momento decisivo para a agenda climática brasileira, o oceano ocupou o lugar de protagonista durante a São Paulo Climate Week. Realizado na Fundação Getulio Vargas (FGV), o evento “O Futuro é Azul: O Oceano no Centro da Ação Climática” reuniu representantes do governo, da academia, do setor financeiro, da filantropia, de organizações da sociedade civil e de comunidades costeiras para discutir como integrar definitivamente o oceano às estratégias de enfrentamento da crise climática.
Promovido pelo Instituto APRENDER Ecologia, pelo Instituto Ambientes em Rede (IAR Brasil) e pelo FGVces – Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV EAESP, com apoio institucional da Conservação Internacional (CI-Brasil) e do Instituto Clima e Sociedade (iCS), o evento teve curadoria de Diego Alvares e da professora Marinez Scherer. O encontro reforçou uma mensagem compartilhada por todos os participantes: não existe solução climática sem o oceano.
A programação foi aberta pela roda de conversa “Mulheres do Mar – Oceano e Clima”, moderada por Maíra Pabst (Instituto APRENDER Ecologia), reunindo Ana Toni, CEO da COP30; Marinez Scherer, Enviada Especial para o Oceano da COP30; Heloísa Schurmann, escritora best-seller e líder do movimento Voz dos Oceanos; Leana Bernardi, presidente do IAR; e uma participação em vídeo de Ana Paula Prates, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. As painelistas compartilharam suas trajetórias e destacaram seu protagonismo em colocar o oceano no centro do debate climático.
O primeiro painel, “Conhecimento e Informação para a Agenda Oceano-Clima”, moderado por Alexander Turra (Instituto Oceanográfico da USP e Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano), discutiu como ciência, dados e produção de conhecimento podem orientar políticas públicas e fortalecer a governança oceânica. Participaram Deborah Prado, do Instituto de Ciências do Mar da Unifesp; Segen Estefen, diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas; Tarin Mont’Alverne, professora de Direito da Universidade Federal do Ceará; e Tatiana Mendonça Cardoso, cientista social, educadora popular e caiçara. Os debates ressaltaram que integrar oceano, clima e biodiversidade exige decisões baseadas em evidências, maior coordenação institucional e instrumentos jurídicos capazes de responder à complexidade dos desafios ambientais.
Na sequência, o painel “Soluções Baseadas no Oceano”, moderado por Oscar Lopes (Neo Mondo/Estadão), apresentou experiências que demonstram como a conservação e a restauração de ecossistemas costeiros podem gerar benefícios simultâneos para adaptação climática, proteção da biodiversidade, desenvolvimento econômico e qualidade de vida das comunidades. Participaram Camila Yamahaki, pesquisadora sênior do Programa de Finanças Sustentáveis do FGVces; Mauro Figueiredo, pesquisador do GPDA/UFSC e do Instituto APRENDER Ecologia; Nátali Piccolo, diretora do Programa Marinho e Costeiro da Conservação Internacional Brasil; e Rusiene Almeida, professora da Universidade Federal de Alagoas e coordenadora da Reserva Nacional de Surf (RNS) da Praia do Francês. Entre os temas discutidos estiveram manguezais, carbono azul, turismo regenerativo, direito ecológico e participação social. Um dos pontos centrais do debate foi a necessidade de integrar os conceitos de Soluções Baseadas na Natureza e Soluções Baseadas no Oceano, com avaliação a partir de padrões técnicos reconhecidos internacionalmente — evidenciando que proteger a natureza também significa investir em infraestrutura resiliente e prosperidade de longo prazo.
Durante a tarde, o painel “Economia Azul: Transformação Econômica Sustentável, Equitativa e Justa”, moderado por Maurício Bianco (Conservação Internacional Brasil), reuniu Ademilson Zamboni, diretor-geral da Oceana Brasil; Diego Alvarez, diretor-executivo do Instituto APRENDER Ecologia; Julia Paletta, diretora da Ocean Energy Pathway; Thauan Santos, professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval; e Will McClintock, pesquisador sênior da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. Os painelistas defenderam uma visão regenerativa da economia, baseada em planejamento territorial, justiça climática, participação social e valorização do conhecimento local, além da necessidade de produzir melhores indicadores sobre o oceano para orientar investimentos e demonstrar resultados.
Encerrando o evento, o painel “Do Discurso ao Investimento: Financiando Soluções Baseadas no Oceano”, moderado por Fábio de Almeida Pinto (FGVces), discutiu os desafios para ampliar o financiamento dessas soluções. Participaram Henrique Callori Kefalas, coordenador-executivo do Instituto Linha d’Água; Karen Silva, Head of Sustainability & People da Cerveja Praya; Manoel Serrão, superintendente de Programas do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO); Maria Netto, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade; Nabil Moura Kadri, superintendente de Meio Ambiente do BNDES; e Janaína Bumbeer, gerente de projetos da frente de Oceano da Fundação Grupo Boticário. Os participantes defenderam mecanismos inovadores de financiamento, como modelos híbridos (blended finance), capazes de combinar recursos públicos, privados e filantrópicos para ampliar o impacto de iniciativas de conservação marinha. O fortalecimento de métricas, a construção de narrativas consistentes e a demonstração de resultados também foram apontados como fatores fundamentais para atrair novos investimentos para a agenda oceânica.
Mais do que um ciclo de debates, O Futuro é Azul consolidou-se como um espaço de articulação entre diferentes setores da sociedade, aproximando ciência, políticas públicas, inovação, investimento e participação social. Ao reunir algumas das principais lideranças brasileiras da agenda oceano-clima, o evento reforçou que colocar o oceano no centro da ação climática deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar uma estratégia essencial de desenvolvimento, adaptação e justiça climática.
Realizado como parte da programação oficial da São Paulo Climate Week 2026, o encontro contribuiu para fortalecer o posicionamento do Brasil como uma liderança global na integração entre oceano e clima, em um momento estratégico de preparação para a COP31 e para a construção de soluções capazes de responder aos desafios do século XXI.
Sobre o Instituto APRENDER Ecologia
Fundado em 2000 e sediado em Florianópolis (SC), o Instituto APRENDER Ecologia é hoje uma ICT — Instituição de Ciência e Tecnologia — que há 26 anos lidera projetos na zona costeira e marinha do Brasil, integrando conhecimento tradicional e científico em prol da conservação ambiental. Entre seus projetos estão o Plano de Manejo da Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, a participação no Painel Brasileiro para a Biodiversidade, colaborações internacionais como o projeto INCOFISH e o Surf Conservation Index (em parceria com a Bren School), e o Programa Brasileiro de Reservas de Surf (PBRS), iniciativa pioneira de conservação de ecossistemas de surf, idealizada e coordenada pelo Instituto, com a Conservação Internacional Brasil como parceira estratégica.
Sobre o Instituto Ambientes em Rede (IAR)
O Instituto Ambientes em Rede (IAR) é uma organização da sociedade civil que atua na conservação dos ecossistemas naturais e no fortalecimento do desenvolvimento sociocultural, promovendo a cidadania socioambiental como eixo central de sua atuação. Membro da Foundation for Environmental Education (FEE), fundação internacional com sede na Dinamarca e presente em mais de 100 países, o IAR coordena, desde 2005, a implementação, no Brasil, dos programas da organização, como Bandeira Azul, Eco-Escolas e Green Key.
Sobre o FGVces
O Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGVces/FGV EAESP) é um espaço multidisciplinar de estudo, pesquisa e produção de conhecimento voltado ao desenvolvimento de estratégias, políticas e ferramentas de gestão pública e empresarial para a sustentabilidade, nos âmbitos local, nacional e internacional.



