
Recursos foram destinados às quatro Reservas Nacionais de Surf para colocar em prática ações prioritárias definidas pelas comunidades em seus Planos de Gestão
Transformar planejamento em ação. Esse foi o principal objetivo da primeira chamada interna de projetos do Programa Brasileiro de Reservas de Surf (PBRS), realizada para apoiar diretamente as quatro primeiras Reservas Nacionais de Surf do Brasil — Itamambuca (SP), Praia do Francês (AL), Moçambique (SC) e Regência (ES).
As propostas foram apresentadas pelas instituições responsáveis pela articulação local de cada Reserva e deveriam estar alinhadas às ações prioritárias definidas coletivamente nos respectivos Planos de Gestão. O resultado foi a realização de projetos com diferentes formatos e estratégias, mas com um ponto em comum: fortalecer o protagonismo das comunidades na conservação dos ecossistemas de surf, na valorização da cultura local e na implementação da governança das reservas.
Entre abril e julho de 2026, as iniciativas apoiadas movimentaram centenas de atletas e milhares de pessoas, além de gerar resultados concretos de conservação, mobilização comunitária, educação ambiental, ciência cidadã e valorização da cultura do surf.
Moçambique: surf, floresta e inclusão
Na Reserva Nacional de Surf Moçambique, em Florianópolis, o projeto apoiou a realização do 1º Festival Cultura Surf e Floresta Viva, realizado em 19 de abril. O evento reuniu mais de 2.500 pessoas e contou com 56 atletas inscritos na competição de surf.
Além das disputas dentro d’água, o festival integrou esporte, música, cultura, restauração ecológica e mobilização comunitária. Um dos destaques foi a participação dos atletas do Surf Sem Fronteiras, coletivo que tem papel importante na ampliação do acesso ao surf e na valorização da diversidade dentro do esporte.
A programação também levou os participantes para ações de conservação no Parque Estadual do Rio Vermelho. Foram retirados mais de 2.800 pinus, espécie exótica invasora, da área de restinga, além do plantio de 50 mudas de espécies nativas e da retirada de aproximadamente 100 litros de microlixo da praia. As ações ambientais envolveram 52 voluntários e oito instituições.
O projeto mostrou, na prática, a conexão entre a qualidade da onda e a saúde do ecossistema que sustenta o surf, aproximando atletas, moradores, organizações comunitárias e visitantes em torno da conservação do território.
Regência: esporte, ciência e trabalho em equipe
Em Regência, no Espírito Santo, os recursos apoiaram o 1º Festival de Surf e Ciência – Cultura Oceânica na Foz do Rio Doce, realizado entre 28 e 31 de maio.
O campeonato reuniu 80 atletas, enquanto a programação científica e educativa contou com mais de 150 participantes nas palestras e debates. O evento também envolveu mais de 30 instituições parceiras, consolidando uma programação que aproximou surfistas, pesquisadores, moradores, estudantes e organizações locais.
Um dos diferenciais da programação esportiva foi a dinâmica de Tag Team, formato coletivo que trouxe para o surf uma dimensão de estratégia, cooperação e espírito de equipe. A proposta ajudou a valorizar a interação entre os participantes e a própria identidade comunitária do surf em Regência.
O festival também deixou resultados concretos no território: foram plantadas 54 mudas de espécies nativas da restinga e retirados 172 quilos de resíduos da praia em um mutirão que contou com cerca de 30 voluntários.
Mais do que um campeonato, o evento colocou o surf no centro de uma programação que conectou ciência, cultura oceânica, restauração ecológica e valorização da comunidade da foz do Rio Doce.
Praia do Francês: campeonato e cultura local
Na Praia do Francês, em Marechal Deodoro (AL), o projeto apoiou a realização do 1º Campeonato da Reserva Nacional de Surf Praia do Francês, entre 24 e 26 de abril.
Depois de anos sem competições na região, o evento reuniu 81 atletas inscritos, distribuídos em seis categorias, promovendo o reencontro de diferentes gerações de surfistas e fortalecendo a cultura local do esporte.
A programação começou com uma forte participação comunitária. A abertura, realizada no Cine Vila, reuniu cerca de 200 pessoas para uma noite de cinema e cultura, com a exibição de quatro curtas relacionados à preservação do oceano. O encontro ajudou a criar um ambiente de celebração e pertencimento antes mesmo de as competições começarem.
A comunidade também participou diretamente das ações ambientais: 54 voluntários estiveram envolvidos em um mutirão de limpeza que retirou 51 quilos de resíduos da praia. Ao longo do evento, a circulação de atletas, moradores e visitantes também movimentou a Vila dos Pescadores e aproximou o campeonato da dinâmica econômica e cultural da comunidade.
Com 43 instituições parceiras envolvidas, o campeonato demonstrou a capacidade de articulação local e reforçou o papel da RNS Praia do Francês como espaço de valorização do surf, da cultura e da conservação costeira.
Itamambuca: comunicação, ciência cidadã e monitoramento
Em Itamambuca, no litoral norte de São Paulo, o projeto teve uma estratégia diferente. Em vez de concentrar os recursos em um grande evento, a iniciativa buscou fortalecer instrumentos permanentes para a implementação da Reserva Nacional de Surf.
O projeto trabalhou na estruturação da comunicação institucional, produção de conteúdos e fortalecimento da identidade visual. Entre as ações, foram desenvolvidas iniciativas como a série “Pequenas Ações, Grandes Ondas”, voltadas a aproximar moradores, surfistas, parceiros e apoiadores da agenda da RNS.
Outro resultado importante foi a implantação do CoastSnap, sistema de monitoramento participativo da dinâmica costeira desenvolvido em parceria com instituições acadêmicas. Foram instalados quatro pontos de monitoramento em locais estratégicos da praia, permitindo que a própria comunidade participe do acompanhamento das transformações da costa.
O monitoramento passou a contar com registros semanais realizados por agentes ambientais comunitários, fortalecendo a integração entre ciência cidadã, educação ambiental, comunicação e gestão participativa.
Do Plano de Gestão para a prática
Os quatro projetos mostram como uma mesma estratégia pode assumir diferentes formas de acordo com as características e prioridades de cada território.
Em Moçambique, o foco esteve na integração entre surf, restauração ecológica, cultura e inclusão. Em Regência, esporte e ciência foram utilizados para fortalecer a cultura oceânica e a mobilização comunitária. No Francês, o campeonato ajudou a reacender a cultura local do surf e aproximar a comunidade do processo de implementação da Reserva. Já em Itamambuca, o investimento priorizou comunicação, ciência cidadã e ferramentas permanentes de monitoramento.
Somados, os três eventos esportivos apoiados pela chamada reuniram 217 atletas inscritos — 56 no Moçambique, 80 em Regência e 81 no Francês — além de milhares de moradores, visitantes, voluntários, pesquisadores e parceiros.
Mais do que financiar atividades isoladas, a primeira chamada interna de projetos do PBRS demonstra uma das principais características das Reservas Nacionais de Surf: os Planos de Gestão são instrumentos vivos, construídos com as comunidades e capazes de orientar investimentos concretos para responder às necessidades de cada território.
O PBRS pretende dar continuidade a esse modelo, fortalecendo a capacidade das quatro Reservas de implementar suas prioridades, ampliar a governança local e consolidar uma rede brasileira em que surf, conservação da natureza, cultura e desenvolvimento sustentável caminhem juntos.
Créditos das imagens: Vitor Fior (Praia do Francês), Eric Ebner (RNS Moçambique) e Aliff Rangel (RNS Regência)
O Programa Brasileiro de Reservas de Surf (PBRS) foi idealizado e é coordenado pelo Instituto APRENDER Ecologia. A Conservação Internacional (CI-Brasil) é parceira estratégica por meio do projeto Ondas da Conservação. O PBRS também conta com o patrocínio nacional do selo Proteja sua Praya, da Cerveja Praya. O objetivo é fortalecer as comunidades locais das Reservas Nacionais de Surf na gestão, conservação e restauração de ecossistemas costeiros, a partir do esporte, cultura e economia local.



